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Imagem do soberano

Por Gisele Miranda – Historiadora. Doutora em História Social
Pinacoteca do Estado de São Paulo, junho de 2007.


A exposição ´Imagem do Soberano´, na Pinacoteca do Estado de São Paulo poderia estar em qualquer lugar do mundo e ser pensada a partir da dinastia Bourbon (1664) – marco dos retratos e esculturas apresentados. Dinastia esta que findou em 14 de julho de 1789, quando o povo tomou a Bastilha e, posteriormente decretou as mortes de Luís XVI, e sua mulher Maria Antonieta, guilhotinados em 1793 (1).

A pomposidade retratada também pode evocar a dinastia dos Capetos, os antecessores divinos, que sete séculos antes promulgou a sucessão em sagração divina – que em termos práticos, é a unção entre o Estado e a Religião.

O final de Luís XVI e Maria Antonieta aconteceu justamente em decorrência de um reinado alienado e fútil ante questões demasiadamente sérias, o que culminou na Revolução Francesa, que por sua vez, fez compor uma outra temporalidade histórica na figura de Napoleão Bonaparte.

palacioversalhes_f_005.jpgLuis XIV em traje real. Ateliê de Hyacinthe Rigaud ou François Stiémart, 1702, óleo s/ tela Acervo do Museu do Palácio de Versailles

A exposição começa pelo rei Sol, Luís XIV – O Grande. Aquele atento à sublevação do povo – fugiu (recuou) e depois retomou; sequenciou com a criação de uma fortaleza – estrategicamente distanciada do povo –, o palácio de Versailles; assim fez perpetuar um estilo artístico, ora copiado, ora rejeitado, mas que marcou seu lugar na história da arte.

Arquitetonicamente bem planejado e com parcerias de projetos de interiores e paisagísticos agregados em um continuum ao projeto geral, Versailles nascia ali, o jardim como extensão da casa e não como ambiente à parte. As paredes que se transformavam em esculturas, as pinturas em retratos. Uma mescla de estilos de Barroco, Rococó e Maneirismo; estilos corporificados a cada soberano, numa dobra e desdobra, refratária, mas aproximada por um outro tempo, um outro conceito por vir - o Romantismo.

palacioversalhes_f_004.jpgA rainha Maria Antonieta com vestido de anquinhas, depois de 1785, óleo s/ tela. Pintores do gabinete do Rei. Acervo do Museu do Palácio de Versailles


Luís XIV foi um mecenas (2). Valorizou como nenhum outro o retrato em sua amplitude artística, alegórica, de registros heróicos, e pela manutenção da distinção de rei cristão, sua nobreza e seu povo. Neste reinado foram criadas as academias de estudos de música, arquitetura, pintura, entre outras.

Seu bisneto Luís XV – O Bem Amado, assumiu a grandiosidade de Versailles, como um bon vivant - apreciador da boa bebida, boa comida e boa cama. Desfrutou da sucessão divina, que nas mortes do pai e do avô, o fez rei.
Seu neto, Luís XVI, O Guilhotinado, também pela morte do pai assumiu e governou rumo ao descontentamento do povo, do fim da dinastia e do fim da sucessão divina.

Os retratos pictóricos impõem-se nessa vertente histórica, político-religiosa e artística. Estratégias, parentescos, posições às voltas da perspectiva arquitetônica de Versailles que adentra a produção artística do Brasil, atrelada pelo parentesco de Dom João VI, com os Orleans e Bragança no momento de perseguição política aos artistas franceses que apoiavam Napoleão Bonaparte (derrotado em 1814) (3).

Num salto particular da exposição, no espaço externo às salas dos Retratos dos soberanos, há um enfoque informativo sobre o projeto de Versailles e Brasília (entre outros pontos), através da figura de Lúcio Costa, de quem sabemos a parceria com o nosso centenário arquiteto Oscar Niemeyer (4). Contudo, a perspectiva arquitetônica de Versailles dos soberanos franceses é modificada pela perspectiva para o /e do Povo, dada por Lúcio Costa.


palacioversalhes_f_008.jpg Vista do Palácio de Versailles do lado da praça de Armas, Jean-Marc Manai, 1722, óleo s/ tela Acervo do Museu de Palácio de Versailles.

Afora o ´mural informativo´ de interesse histórico e de aproximação da França com o Brasil, caberia o destaque também do mecenato de Assis Chateaubriand sob o pulso de Pietro Maria Bardi para a criação do acervo do MASP, que abriga, entre tantas obras, as quatro pinturas que representam os elementos terra, fogo, ar e água e que retratam as filhas de Luís XV, pintadas por Jean-Marc Nattier, emprestadas para essa exposição na Pinacoteca, e tantas outras pelas quais se insere a sagração divina da dinastia Bourbon.

Notas:

(1) Para quem puder ressoar o filme Maria Antonieta, dir. Sofia Coppola, 2007 e Encontros e Desencontros, 2003 (neste longa,além da direção, Sofia fez o roteiro que foi premiado pelo Oscar em roteiro original em 2004) – perceberá que essa Coppola sabe brincar com astúcia e sutileza a respeito da presença feminina em tempos bastante distintos e fugazes.
(2) Caio MECENAS: o sobrenome Mecenas tornou-se um nome comum para designar patrocício/investimento/apoio às artes em geral. Caio Mecenas foi um patrono das letras, político e conselheiro do imperador César Otávio Augusto.
(3) D. Pedro I efetivou as boas-vindas aos artistas desterrados e fundou a Academia Imperial de Bellas Artes. Cabe lembrar também do Museu Paulista (Museu do Ipiranga /SP/Brasil), criado em 1895 pois o seu jardim é modelo reduzido estilo copiado dos jardins de Versailles. Inúmeros artistas franceses vieram para o Brasil, como se sabe, pela missão artística francesa e por questões políticas.
(4) Caberia aqui a indicação do documentário Oscar Niemeyer – a vida é um sopro, com direção de Fabiano Maciel, 2006.


* Curadoria: Xavier Salmon : são 40 pinturas, 16 obras em papel, 3 esculturas, 1 tapeçaria, e as 4 pinturas do acervo do MASP.

Para quem não puder adquirir o catálogo que custa R$ 100,00 (cem reais! Inacessível para estudantes, professores e pesquisadores, ou seja, o público em geral); não há folder da exposição, portanto sugiro a compra dos postais de retratos – 6 postais por R$ 5,00. E nada de papel e lápis para anotações – é proibido!
Estacionamento gratuito
Ingressos: 4,00 e 2,00 (estudantes), e aos sábados gratuito!
Encerramento: 5 de agosto, 2007.
Pinacoteca do Estado de São Paulo
End: Praça da Luz, 2 (11) 3229-9844
São Paulo


Comentarios (5)

Dan:

Texto instigante numa dupla articulação: atual e citadina, pois convida à visita da exposição em tão belo espaço como é a Pinacoteca de São Paulo; e virtual, pois transporta o leitor, que ainda não visitou o espaço, para uma multitemporalidade. Eis a profusão de tempos que forjou a modernidade, da qual somos parte, nós, sul-americanos [e só parte...].

Lu Martins:

Parabéns pelo texto! Visitei a Pinacoteca e acho que vc resumiu perfeitamente a maravilhosa exposição que ali se encontra, inclusive contribuindo para elucidar ainda mais aspectos daquela época.

Anónimo:

muito ciasico xique quem dera si eu tivese trages como do luis xiv

José Luiz (HD):

Bom, o que dizer sobre um texto que se compromete a informar com precisão cirúrgica HISTÓRIA? Gisele descreve de tal forma,que até leigos como eu se encantam e entendem o que é posto. Aciencia História jamais deixará de ser sedutora, importante,essencial até. Grato por me oferecer um painel tão rico.

Elisa:

Bom achei o texto interesante
e Maria Antonieta foi uma mulher a qual ninguem chegaria aos pés

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