“Se é verdadeira a afirmação que diz que a palavra, nas encruzilhadas críticas, ganha um valor superlativo; se não é menos verdadeira a que diz que o silenciamento da palavra é uma das molas privilegiadas utilizadas por todas as ditaduras conhecidas, tanto em nosso país como no mundo, então o fato de se escutar a palavra que devém testemunho dos que sobrevivemos às mais cruéis gestas de amordaçamento da verdade, após haver suportado em corpo e alma – na verdade, sem poder suportá-las – as piores crueldades, ganha um sentido que excede largamente às tragédias pessoais em jogo, e assume a dimensão de um acontecimento histórico necessário. Que essa multiplicidade de vozes, amadurecidas ao longo de várias décadas de impunidade, se espalhe na cena pública dos julgamentos de um genocídio que assombra aos argentinos: eis um dos raros signos desta época que nos toca transitar.”
“Poderemos ouvi-las? Poderemos dar espaço a esses relatos na trama imaginária coletiva? Como sociedade, seremos capazes de desmontar as posições renegatórias que ainda persistem entre nós, a infame e infamante ´teoria dos dois demônios´, com a qual se buscou e ainda se busca chancelar um passado abominável, enclausurando verdades que insistem, que pugnam para serem ouvidas? Poderemos, construindo estas suturas de memória, ganhar por fim o direito de esquecer, de tornar verdadeiro passado esse passado, para que deixe de perfurar-nos, como um presente eterno?”
Marta Bertolino, professora da Faculdade de Psicologia da Universidade Nacional de Rosário/UNR-Argentina. Psicóloga, psicanalista, analista institucional. Extraído de "Hagamos memoria", conferência sobre o julgamento oral e público aos genocidas da ditadura militar, em Rosário. (Centro Cultural CEJ) Tradução de trechos: Damian Kraus
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