Fazer memória

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marta-bertolino.jpg “Se é verdadeira a afirmação que diz que a palavra, nas encruzilhadas críticas, ganha um valor superlativo; se não é menos verdadeira a que diz que o silenciamento da palavra é uma das molas privilegiadas utilizadas por todas as ditaduras conhecidas, tanto em nosso país como no mundo, então o fato de se escutar a palavra que devém testemunho dos que sobrevivemos às mais cruéis gestas de amordaçamento da verdade, após haver suportado em corpo e alma – na verdade, sem poder suportá-las – as piores crueldades, ganha um sentido que excede largamente às tragédias pessoais em jogo, e assume a dimensão de um acontecimento histórico necessário. Que essa multiplicidade de vozes, amadurecidas ao longo de várias décadas de impunidade, se espalhe na cena pública dos julgamentos de um genocídio que assombra aos argentinos: eis um dos raros signos desta época que nos toca transitar.”

“Poderemos ouvi-las? Poderemos dar espaço a esses relatos na trama imaginária coletiva? Como sociedade, seremos capazes de desmontar as posições renegatórias que ainda persistem entre nós, a infame e infamante ´teoria dos dois demônios´, com a qual se buscou e ainda se busca chancelar um passado abominável, enclausurando verdades que insistem, que pugnam para serem ouvidas? Poderemos, construindo estas suturas de memória, ganhar por fim o direito de esquecer, de tornar verdadeiro passado esse passado, para que deixe de perfurar-nos, como um presente eterno?”

Marta Bertolino, professora da Faculdade de Psicologia da Universidade Nacional de Rosário/UNR-Argentina. Psicóloga, psicanalista, analista institucional. Extraído de "Hagamos memoria", conferência sobre o julgamento oral e público aos genocidas da ditadura militar, em Rosário. (Centro Cultural CEJ) Tradução de trechos: Damian Kraus

La ética en Deleuze

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Entrevista con el filósofo brasileño Luiz BL Orlandi sobre la filosofía deleuzeana*.
Por Fernanda Bellei. Traducción del portugués: Damian Kraus

Deleuze afirma que "no hay obra que no deje una salida a la vida, que no señale un camino entre los adoquines"1. ¿Cómo podemos interpretar esta afirmación? ¿No implicaría una actitud de corrección de la vida?
Deleuze dice eso no recurriendo pura y exclusivamente a la relación entre las obras y ciertos engranajes de la vida empírica; pero sucede que las obras tienen un poder de crear en la propia vida empírica los entretiempos que la elevan a dimensiones siquiera soñadas.

Vuelo

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¿Cuándo vuelve el desaparecido? Cada vez que lo trae el pensamiento.
¿Cómo se llama el desaparecido? Una emoción apretando por dentro.

Rubén Blades, Desapariciones

Num condensado de uma semana, o mundo feito de matéria de notícia, o mundo feito de informação, cravou seus olhos na imensidão atlântica entre o Brasil e a África, buraco oceânico que sumiu com o portentoso avião Airbus, da companhia Air France. Numa semana, a “opinião pública” [na Argentina, la gente], aquela que pode viajar de avião, ou pelo menos portar imagens de tais viagens, sentiu na carne a sensação do desaparecido, daquele que não está nem vivo nem morto, numa espécie de limbo, lugar inexistente, mas pulsante justamente por ausência. E a opinião pública ficou consternada, sentiu a pele eriçar de emoção junto à emoção dos familiares, dos entes queridos, dos quais os jornais começam a extrair e publicar comoventes histórias de vidas...

Por uma urdidura de acaso, da fatalidade, das deficiências técnicas, dos erros humanos e quem sabe do quê, se encena nas subjetividades, no coletivo de pessoas e histórias, aquilo que alguma vez fora um artifício brutalmente humano: 33 anos atrás, fora montado, armado, não muito longe deste Atlântico tropical, nas costas rioplatenses, sob a artimanha da razão de Estado, na Argentina. Mas no caso atual foi na imensidão oceânica: muito longe de qualquer litoral - uma macabra trama encena em dimensões colossais aquilo que outrora aviõezinhos de republiqueta, pilotados por militarezinhos de republiqueta, fizeram com “gente” de coragem verdadeira, como Azucena Villaflor e tantos outros. Quase 30 anos se passaram para identificar e enterrar alguns desses corpos...

Não, cara Beatriz Sarlo*, você diz em entrevista hoje que é coisa de argentino a perene discussão sobre o destino dos cadáveres. Evoca uma pretensa lucidez de Borges, em El Simulacro, para ver esse pathos sinistro. Porém não é esse o escritor visionário, eis o reacionário, que nesse momento vive e pulsa em você. O escritor visionário talvez seja aquele de Las causas, que evoca a moeda na boca quem morre: necessidade imemorial e vital dos povos de cultuar suas relações e suas continuidades com outros mundos, e que por estes dias tornaram a pulsar acidentalmente por estes trópicos.


* Sobre a entrevista, intitulada Fervor de Buenos Aires, que concedeu ao jornal Folha de S. Paulo: Caderno Mais!, dom 7 de junho 2009, pp.4-5. Cito a fonte, mas intencionalmente, não faço o link com o jornal.

"Quando não convém gabar-se de ter sotaque" O título abre este parágrafo, da pág. 47 do livro Nativos Digitales. Dieta cognitiva, inteligencia colectiva y arquitecturas de participación, de Alejandro Piscitelli, que traduzimos aqui: «(…) nos encontramos ante uma paradoxal situação: os instrutores, que são preponderantemente imigrantes digitais, e que falam uma língua em vias de extinção, da era pré-digital, estão tentando ensinar a uma população que fala uma linguagem totalmente diferente e que é incompreensível para esses professores imigrantes. Embora o problema quase nunca seja lido deste modo, grande parte da resistência infanto-juvenil ao ensino hoje hegemônico nas escolas é produto da rejeição dos nativos àqueles que pretendem lhes ensinar a própria linguagem, sendo que eles, os nativos, já falam essa língua arcaica, pois a aprenderam como segunda língua. Um absurdo fadado ao fracasso de antemão. Fica mais claro então o porquê do lugar arrasado da escola nesta equação?»

Poema, tango&tempo

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O futuro

[tradução d'El futuro, de Julio Cortázar, por Damian Kraus]

Sei muito bem que não estarás.
Não estarás nas ruas,
nem no burburinho que brota na penumbra
de postes iluminados,
nem no gesto de escolher o cardápio,
nem no sorriso que alivia
o amontoado no metrô,
nem nos livros emprestados
nem naquele boa noite!

Não estarás nos meus sonhos,
nem no destino original
das minhas palavras,
nem no número telefônico estarás
nem na cor de uma saia
ou de uma blusa.
Vou me irritar, meu amor,
mas não será por tua causa,
e comprarei bombons
mas não para ti,
pararei numa esquina
à qual não chegarás,
e falarei as palavras que se falam
e comerei as coisas que se comem
e sonharei as coisas que se sonham
e sei muito bem que não estarás,
nem aqui dentro, no cárcere
onde eu ainda te retenho,
nem lá fora, neste rio de ruas
e viadutos.
Não estarás para nada,
não serás nem lembrança,
e quando pense em ti
pensarei um pensamento
que obscuramente
tentará lembrar-se de ti.


Ouvir o poema em castelhano, acompanhado do tango: >>> cada_vez_que_me_recuerdes.mp3 <<<

Voz de Julio Chávez, no poema El futuro.
Canto em Cada vez que me recuerdes: Jimena Sánchez. Ouça também o CD Golondrinas - Tributo a Gardel, clicando aqui

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