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PEDAGOGIA DA DENÚNCIA

Com ares de "denúncia", a mídia brasileira elabora a maior campanha dos últimos tempos para desmoralização do governo, misturando investigações não concluídas com o sensacionalismo da indistinção entre acusações verdadeiras e falsas.

Que os países da América Latina - refiro-me ao Brasil - padecem de corrupção generalizada e de desigualdade abissal, podem ser considedas essas algumas de suas características principais. Durante o século XX, em reação a essa condição explorada e servil da América Latina, nasceram vários movimentos revolucionários e sociais. No Brasil, a constituição do Partido dos Trabalhadores por vários intelectuais e militantes, foi um dos marcos dessa reação.

Da criação do PT até os dias de hoje, uma série de simbolismos foram envolvidos na postura desse partido como reação e alternativa ao coronelismo dominante: as lutas dos movimentos sindicais, a militância fervorosa, a associação de estudiosos (historiadores, literatos, artistas, antropólogos) e a ascenção da figura do então presidente Luís Inácio Lula da Silva como líder popular foram alguns desses simbolismos, de um partido que criou para si mesmo a imagem da ética e da mudança. Na campanha presidencial de Lula contra o adversário José Serra, uma expressão tornou-se conhecida: tendo a campanha de Serra utilizado uma atriz brasileira conhecida (Regina Duarte) numa cômica dramatização que demonstrava o "medo" do Brasil ser governado por Lula ("eu tenho medo", dizia a atriz, a respeito do Brasil ser governado por "radicais" do PT), a resposta foi incisiva: "a esperança venceu o medo".

A relação do PT com a mídia dominante nunca foi boa. Seus militantes sempre foram por muitos taxados de "arruaceiros" e "radicais", e antes da eleição do presidente Lula o "medo" - alardeado até mesmo na mídia - mostrava o dólar e o chamado "risco Brasil" subindo vertiginosamente. Antes e após a posse de Lula, já se buscou taxá-lo de beberrão, incapaz de governar devido a não ter cursado o ensino superior, bem como várias investidas tentaram associar o governo Lula a insucessos políticos e econômicos e a procedimentos populistas e totalitários. Antes de sua eleição, um caso se tornou bem conhecido: a manipulação, pela Rede Globo, do debate entre Lula e Collor, nas eleições de 1989, em que o processo de edição, influenciado por diretores da Globo, favoreceu a vitória de Collor, como já divulgaram vários meios (cito, por ex., o Canal da Imprensa, a entrevista de Paulo Henrique Amorim à TRIP, e várias reportagens do Observatório da Imprensa).

Um desses meios, em particular, levou adiante a questão da edição que favoreceu a vitória de Collor, ligando o próprio jornalismo brasileiro às políticas tradicionais do país. Trata-se do documentário "Beyond Citizen Kane", da BBC, que revela ligações insuspeitas entre políticos da chamada "direita" brasileira e a mídia, mostrando que vários políticos são diretamente ligados ao comando de emissoras de televisão e rádio (seriam por acaso as congratulações de vários dos principais políticos do Brasil aos 40 anos da Globo?). A pouco, o Observatório da Imprensa publicou artigo a esse respeito, demonstrando como políticos do PTB, PL, PFL, PSDB, PPS e outros partidos são diretamente ligados às concessões brasileiras de TV e rádio e que, portanto, a difusão pública de informações no Brasil está muito próxima de interesses privados.

É dentro desse contexto que a crise atual brasileira recebe suas nuances e seu modo de ser. A mídia dominante brasileira sempre foi a mesma (salvo algumas mudanças e exceções), e a política brasileira também. Entretanto, algo estranho ocorre na crise do governo Lula, que diz respeito à visibilidade gradativa dada a todo tipo de denúncia - fundada ou infundada -, e a acusadores que não teriam o mínimo de confiabilidade. Como a visibilidade conferida às denúncias de Roberto Jefferson, declarado e confesso corrupto, ao governo brasileiro (Como dar confiança insuspeita a um denunciante que, de saída, não é confiável?). Visibilidade para evidenciar uma crise que, em momentos anteriores, não foi empregada pela mídia, como o esquecimento e o "engavetamento" de várias CPI´s, como a da privatização do Banestado, e a de desvios de recursos em campanhas como a de Cássio Taniguchi, ex-prefeito de Curitiba.

Essa dupla visibilidade (ou falta) empregada pela mídia demonstra aspectos interessantes: primeiramente, o valor indiscriminado que é dado às denúncias, sejam ela verdadeiras ou falsas, e a pressa em que se busca ligar as denúncias à figura do presidente Lula. Junto a esse valor indiscriminado da denúncia, as retificações às denúncias falsas são meras menções, sem ênfase. A grande impressão que é dada ao espectador é a de que somente há denúncias, a de que elas são todas fundadas, e a de que o PT está envolvido generalizadamente na corrupção brasileira. É como se todos os integrantes do PT fossem corruptos, ou mesmo a maioria dos chamados 'petistas'. Junto aos acontecimentos estarrecedores que envolvem alguns integrantes do PT (e que são generalizados ao partido como um todo), outros ocorrem junto a integrantes de outros partidos, mas que não recebem a mesma visibilidade pela mídia do que a que tem sido conferida ao PT. Dois exemplos contemporâneos são os dez milhões de dólares encontrados em malas do deputado João Batista, do PFL, e bispo da Igreja Universal, e o "caixa 2" envolvendo a figura de Eduardo Azeredo, do PSDB. Não envolveriam esses dois acontecimentos, tanto quanto os relativos ao caixa 2 empregado por Delúbio Soares, "pontas de iceberg"? Por quê, então, dar visibilidade e generalizar a podridão a apenas um dos "lados"? Ao bom jornalista, não seriam os outros dois escândalos também ricas fontes de informação?

A mídia brasileira dominante parece estar padecendo de uma espécie de "pedagogia da denúncia", em que rumores indiscriminados, junto a indícios verdadeiros, criam um ar de podridão generalizado às figuras que sempre representaram a oposição brasileira. Os resultados das investigações - que separariam o que é verdadeiro do que é falso - são assim ofuscados pela denúncia pura e simples, denúncia que é empregada desse modo e nesse momento político em especial, o que gera ao brasileiro uma espécie de mal-estar. Mal-estar que não é amenizado pelos jornalistas da mídia maior brasileira, que misturam a denúncia indiscriminada atual a um estranho silêncio frente ao passado recente. Posição que deveria ser revisada, pois influi diretamente no que ocorrerá nos próximos anos.

Comentarios (2)

Benedito Aparecido da Silva:

Adorei este artigo. Diz tudo o que penso, que é fazer as investigações a fundo, pois não é justo tirar ladrão e deixar aqueles que sempre roubaram ficar e entrar novamente, que é o que irá acontecer com PSDB, PFL etc.
Nesta história toda só tenho a lamentar a atitude da mídia mas, que um dia alguém contará esta história em livro, com nome e sobrenome de todos que estão nesta campanha, e ficarão nos anais da história não tão abonadora.

Francisco Madeira:

"Com ares de "denúncia", a mídia brasileira elabora a maior campanha dos últimos tempos para desmoralização do governo, misturando investigações não concluídas com o sensacionalismo da indistinção entre acusações verdadeiras e falsas. "

Nunca vi uma descrição tão perfeita da imprensa brasileira. Esta frase não vale só para a crise atual é de uma perenidade incrível.

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